Esse detalhe diante da grandeza da presença e amor incondicional era muito pequeno. Mas fazia diferença, ah, como fazia! Por vezes, a cama inundada deles, o carro após um passeio, impregnado. Impregnado. Uma palavra sábia pra definir esses apêndices filiformes com alto poder de grudar em tudo quanto é canto, de flanar mundo afora.
Fui pra Bahia. Fiquei por lá um mês. Em vinte dias de sol, praia e mar, voltava pra casa, tomava um chuá e colocava aquela roupa fresquinha que estava na mala. Adivinha o que tinha de brinde? Pelos na roupa. A vontade de voltar pra casa gritava em mim. Pelos eram saudades.
Certa vez, Dona Madre implicou: minha filha, Tequila estava em cima do sofá, pode confessar, eu sei, estava cheio de pelos! Argumentei: poxa madre, mas eu achei pelo dela lá na Bahia e ela não foi pra Bahia! Venci. Pelos legitimamente ingleses, victorianos!
Levei a Tequila pra o sítio de um amigo meu, no carro do amigo. Avisei. Ela solta muito pelo! Tem problema não, simbora! Seis meses depois Arthur comenta: poxa Liz, até hoje eu ainda acho os pelos da Teq no carro daquela viagem no fds! hahahah Ele não iria esquecer aquela viagem enquanto houvessem pelos no carro. Pelos eram memórias.
Fui pra balada com aquele vestido top, mara. Preto. Luzes negras e shazam, acontecia a mágica! Minha indumentária negra ganhava rajados brancos. Fashion até! ;o) Quem mandou amar tanto, apertar tanto, abraçar tanto aquela bolinha de peruca antes de sair de casa? Amor purinho de mãe pra filha, dizendo, ei, vou ali, mas volto logo tá!? Pelos eram amor.
Toda essa metáfora sobre pelos é porque a Tequila se foi. Dói meu coração. Não faz um mês ainda. E a toda hora.... a todo momento, eu acho pelos pela casa. Nos primeiros dias eram muitos, do jeitinho que eram todos os dias com a presença dela. Agora, a cada dia a quantidade é menor. Sei que daqui a um ano ainda vou achar algum por aqui e acolá, coladinho em algum lugar. Mas a cada dia que passa, eles passam. E isso dói. Esse texto não tem a intenção de ser bonitinho, legal, construtivo, nada. É só um desabafo. Pelos são lembranças.

















